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O Bangu de hoje não merece meus parabéns
17/04/2017


Se alguém estiver comemorando o aniversário de 113 anos do Bangu Atlético Clube hoje e estiver a fim de ler algo que celebre suas glórias do passado, relembre os bons momentos, pode deixar de ler essa coluna imediatamente. Eu não vejo motivo algum para se comemorar. Não estou feliz com a 10ª colocação de 2017, com a 7ª colocação de 2016, com a 8ª colocação de 2015, com a 10ª colocação de 2014, com a 11ª colocação de 2013, com a 13º colocação de 2011 e 2012. Não ando contente com o Bangu desde 1989.

Tampouco acredito que irão organizar um time decente para a Série-D. Acredito sim que, entre um jogador que peça um salário de 5.000 e um jogador que peça um salário de 4.500, irão sempre pegar o que custa menos. Jogador em Bangu é apenas para compor elenco. Em Bangu, a ordem é entulhar um monte de "zé mané", economizar o dinheiro das cotas e desaparecer com o que restar.

O grupo da Série-D é fragílimo. Villa Nova (9º lugar no Mineiro) e Desportiva (8º lugar no Capixaba) suaram para não serem rebaixados nos seus respectivos estaduais. Times que só se safaram na última rodada, tal como o Bangu. A Portuguesa está na 2ª Divisão paulista sem chances de subir e se perder para o XV de Piracicaba na última rodada pode cair para a 3ª Divisão. Todos os quatro são timecos. E o Bangu não fará questão de passar da primeira fase. Quanto mais se avança, mais gastos com concentração, alimentação, transporte, hospedagem. É tudo o que o Bangu não quer. Perder mais uma fatia do que restou das cotas de TV. Na minha opinião, o time será fraquíssimo, justamente para cair logo na primeira fase.

Em 2001, quando disputava a Série-C, a diretoria (que é a mesma de hoje) colocou em campo um time horroroso, treinado por Roberto Teixeira. O time ficou em último lugar num grupo que tinha Madureira, América, Olaria, Etti Jundiaí, Atlético de Sorocaba e Santo André. Quando perguntei ao dirigente Bruno Calheiros Augusto por que éramos tão fracos, ele me respondeu:
- O negócio aqui não é passar de fase. Melhor ser eliminado logo de cara para não gastar mais dinheiro.

A filosofia é a mesma até hoje. Depois me cobrem. Dinheiro o Bangu tem (um ex-jogador deste elenco de 2017 me confidenciou que a diretoria está bem "forrada" este ano), mas não irá empenhá-lo em momento algum.


Crise ética

A série de denúncias que assolam o país de uma corrupção assombrosa, me faz pensar que nessa Nova República (que começou pós-1985, com o fim da ditadura), os homens que chegam ao poder são todos inescrupulosos, sem ética, e topam qualquer jogada suja. Não há limites, como a "operação lava-jato" vem mostrando. Talvez, seja uma característica desses homens de agora. No futebol é a mesma coisa.

Antigamente, o sujeito entrava no clube, administrava um tempo e depois ia embora, passava o bastão para outro. Rubens Lopes, a partir de 1989, entendeu que poderia viver dos lucros do futebol. Foi um dirigente eterno. Largou a medicina (justo ele, um médico especializado em doenças parasitárias, que ironia) e viu no futebol algo ainda mais lucrativo que sua profissão. Sem ética alguma, eliminou conselheiros, eliminou sócios e criou um campo fértil para enfiar ali um sucessor. Jorge Varela também não advoga mais. Possui registro na OAB, mas prefere viver do Bangu. E, assim, vai postergando sua vida útil lá dentro desde 1999, quando se orgulhava em dizer que era o mais jovem presidente de um clube no Brasil, com apenas 38 anos. Hoje, já tem 56 anos e continua fingindo ser um presidente preocupado com os destinos do clube. Em sua longuíssima gestão, nem os refletores ele conseguiu colocar para funcionar.

Digo tudo isso, desse apego dos homens de agora pelos seus cargos, pelo vale-tudo para se manter, para lembrar aos leitores que, antigamente, na República Velha (de 1889 a 1930), os homens ainda tinham ética, ainda tinham palavra ou honravam seus compromissos no "fio do bigode". A reputação era tudo.
Vejam o caso de Noel de Carvalho, nosso presidente em 1915.

Naquele longínquo ano, o Bangu estava construindo um muro ao redor do campo da Rua Ferrer. Pois bem. Ganhou a licitação um senhor chamado José Ferreira que propôs construí-lo com um abatimento de 2% sobre a proposta mais barata. Desta forma, a melhor oferta custava 1:500$000 (um conto e quinhentos mil-réis). José Ferreira faria por 1:470$000 (um conto e quatrocentos e setenta mil-réis).

José Ferreira era "picareta" e construiu o muro sem alicerces. O tesoureiro Francisco Carregal chegou a dizer que considerava essa quantia cobrada "exorbitante para o pagamento do serviço nas condições em que está feito".

Resumindo. A construção do muro deu tanta dor de cabeça para o presidente Noel de Carvalho e se tornou algo tão dispendioso que alguns sócios passaram a levantar suspeitas sobre a sua honestidade. Ou seja, claramente acreditavam que o presidente do Bangu estava embolsando alguma coisa naquela obra. Ouvindo seguidamente "comentários pouco decentes em torno do seu nome", Noel de Carvalho renunciou, pois considerava esses comentários maldosos "uma ofensa à qual não pode submeter os seus brios".

Vejam bem! Em 17 de junho de 1915, o presidente do Bangu renunciou ao mandato apenas porque alguns sócios tinham colocado sua honestidade em dúvida. Não havia comprovação de fraude alguma. Noel era um homem honrado até demais, tanto que voltaria a ser eleito para dirigir os destinos do clube em 1916 e 1917.

Esse desapego aos cargos, esse renúncia para provar sua honestidade, essa não aceitação em que se duvide de seu caráter, essa postura de se ruborizar frente à mínima dúvida, isso acabou com a República Velha. A Nova República é uma geração cheia de homens que não se envergonham de ter sua conduta colocada em xeque, não se envergonham em ver seus nomes citados aqui e ali. No futebol, assim como na política, os tempos são os mesmos...

Pensem nisso e feliz aniversário!

 
Carlos Molinari
Pesquisador da história do Bangu Atlético Clube
     
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