Rio de Janeiro, terça-feira, 19 de setembro de 2017 - 10h32min
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Laranjeiras 12 de novembro de 1933


Dia histórico para o Bangu, antes da partida contra o Fluminense, nas Laranjeiras, em 12 de novembro de 1933. Em pé: Mário Carreiro, Ferro, Santana, Orlandinho, Plácido, Camarão, Médio da Guia e Tião.
Agachados: Sobral, Ladislau, Euro (com a mascote Manô), Sá Pinto, Euclides e Paulista.

“Nas rodas esportivas, o assunto do dia é o desenrolar deste prélio” – avisava o jornal A Batalha, às vésperas da grande decisão do Campeonato Carioca de 1933.

O time dos operários enfrentaria o clube da aristocracia: Bangu e Fluminense disputariam o primeiro título de campeão profissional do Rio de Janeiro. Os dois vinham empatados com 12 pontos e a partida decisiva seria realizada no estádio das Laranjeiras, casa tricolor.

Curiosamente, o Bangu trazia Luiz Vinhaes como técnico, exatamente o comandante que, no início do ano, treinava o time do Fluminense. Para o cronista Mário Filho, “Luiz Vinhaes largara o Fluminense, cansado de lutar com jogador branco, de boa família, cheio de chiquê. Os pretos do Bangu, outra coisa: simples, modestos, de alma aberta, sem complicações. Respeitando Luiz Vinhaes, ouvindo-o de cabeça baixa”.

Acatar as ordens de Luiz Vinhaes era aceitar o regime de concentração implantado pelo treinador. Os banguenses passaram a semana decisiva na concentração montada no Chalé dos Ingleses, a antiga casa do administrador da Fábrica. Sair só para o coletivo-apronto no campo da Rua Ferrer e fazer corridas na Estrada do Engenho.

“Somente às quintas-feiras, antes do treino, Vinhas permitia visitas. As famílias dos jogadores, pais, irmãos, mulheres, namoradas, apareciam, espalhavam-se com eles pelo quintal, formando grupinhos, parecia que havia piquenique” – lembrou Mário Filho.

“Pela manhã, fazem ginástica. Corrida a pé, massagens e repouso obrigatório. Depois, o almoço. Comida simples, mas sadia. À tarde, lanche e à noitinha, jantar. Nove horas, cama. Esta é a vida que os rapazes estão levando aqui. Veremos domingo o resultado disto” – explicava o Tenente Francisco Barbosa, responsável pela preparação física do time.

Tudo isso parecia exagero aos olhos do presidente do Fluminense. Em entrevista, Oscar da Costa dizia que “não nos parece aconselhável modificar o método de vida dos jogadores”. Por isso, no sábado, véspera do jogo, era possível ver o ponta-direita tricolor Álvaro na avenida Rio Branco “apreciando o desfile das morenas, que não existiram esta semana para os banguenses” – divertia-se o cronista do Jornal dos Sports.

Para o pessoal do subúrbio, no entanto, aquele jogo de domingo valia muito. O Fluminense já tinha oito títulos de campeão carioca, o Bangu jamais chegara tão longe. A torcida também se mobilizou.

Um exagerado Osório de Sousa chegou a mandar uma carta aos jornais conclamando os alvirrubros para a luta: “Banguenses! É chegada a hora de conquistardes o mais belo dos vossos troféus! A jornada de domingo representará um galardão sem par em vossa vida esportiva! Pisae a arena como os gladiadores da antiga Roma – firmes e decididos, confiantes e tranquilos!”.

Assim como os jogadores tinham que fazer sua parte, os moradores do bairro entenderam que também podiam ajudar diretamente o time:

“No dia do jogo muita gente de Bangu, que não vinha à cidade há anos, desceu bem cedinho, para garantir o seu lugar na geral, na arquibancada do Fluminense. Trazendo um embrulho de comida. Um pacote de fogos. Os torcedores do Bangu avisando uns aos outros: ‘levem fogos’. E o segredo ficava entre eles, ninguém que não fosse Bangu devia saber, senão estragaria tudo.”

Os ingressos foram colocados a venda ao preço de 11 mil réis a cadeira numerada; 4 mil e 400 réis uma arquibancada; 3 mil e 300 réis um lugar na geral. No total, a renda chegou a 38 contos de réis. “O stadium tricolor encheu-se de uma multidão ruidosa e entusiástica. A expectativa era das mais enervantes” – contou O Paiz.

O tenente Jocelyn Brasil era um dos presentes às Laranjeiras e lembra do famoso foguetório que antecedeu a entrada do Bangu em campo:

“O time do Fluminense entrou em campo e ficou esperando os visitantes, tal como convinha a uma equipe fidalga. Quando o Sá Pinto botou a cabeça na saída do vestiário, o estádio das Laranjeiras ficou que nem noite de cerração. Um barulho de ensurdecer! A gente nem via quem estava em campo. Quando a nuvem de fumaça se espaireceu, eu vi a moçada do Fluminense abestadinha assim como quem não atinava com o que se passava. Não sei e quero que se informem a respeito, mas acho que aquela foi a primeira vez em que o foguete de São João se amancebou com o futebol”.

O Correio da Manhã chamou atenção para o fato, destacando que as bombas partiram das gerais, justamente o local mais barato do estádio, onde estava localizada a torcida do subúrbio.

Depois do foguetório e da tradicional pose para as fotos de campeão, o juiz Solon Ribeiro apitou o início do jogo às 15h35.

Sete minutos depois, a surpresa: o atacante Tião aproveitou uma falha do zagueiro uruguaio Cabrera e partiu rápido para a área. Desesperado para cortar o lance, o meia Ivan aparece e chuta a bola com força, mas com tanta infelicidade, que ela bate na trave e vai para o fundo das redes. Gol contra! Um gol que desnortearia todo o sistema defensivo do Fluminense. Das gerais, ouviam-se novamente os fogos de artifício. “A todos pareceu que, se Tião tivesse chutado, o arco tricolor da mesma forma cairia” – avaliou o Correio da Manhã.

Durante alguns minutos, o Flu tentou empatar, porém o atacante Russo perdeu boas oportunidades. Os banguenses, saindo da defesa, foram contra-atacar. Ladislau dá ótimo passe a Tião. O chute sai cruzado, não tão forte, mas o goleiro Armandinho cai atrasado. A bola passa por baixo de seu corpo e vai para as redes: 2 a 0. Um frango! O Campeonato de 1933 parecia definido com 25 minutos de jogo.

O tempo que restou até o fim do 1º tempo foi de pura pressão do tricolor, com o Bangu explorando apenas os contra-ataques.

Com o título nas mãos, o alvirrubro poderia assegurar a vitória por 2 a 0, mas naqueles tempos o futebol era puramente ofensivo. No 2º tempo, aos 7 minutos, Tião disputa a bola com os zagueiros e, na raça, toca para Plácido. O atacante banguense chuta no alto, Armandinho ainda chega a saltar, mas é inútil: 3 a 0 para os novos campeões da cidade! Àquela altura, a torcida que veio do subúrbio não se aguentava mais de tanta felicidade, o estoque de fogos trazidos já estava acabando.

Aos 25 minutos, pouco depois de ter tido um gol anulado por impedimento, o Bangu volta a marcar. Plácido chutou, Armandinho – num péssimo dia – soltou e Tião apareceu para colocar o quarto gol nas redes. Ninguém podia acreditar: no estádio das Laranjeiras, o Fluminense tinha sido aniquilado pelo Bangu. O time fez sua parte e a torcida esperou o apito final para dar uma demonstração de gratidão aos heróis de 1933:

“Terminado o jogo, invadiram o campo e carregaram em triunfo os jogadores vitoriosos e o técnico Luiz Vinhaes. Um delírio! Um espetáculo comovente que poucas vezes temos presenciado” – contou o Diário de Notícias.

“Saímos das Laranjeiras e fomos direto para um restaurante na Praça Tiradentes, ao lado do cinema São José, e comemoramos até tarde. Depois, seguimos em caravana para Bangu, aonde chegamos com muitos fogos e muita música durante o corso pela cidade” – relembrou o ponta-esquerda reserva Dininho.

Haveria Carnaval, noite de São João, todas as festas do ano fundidas numa só. E foi para dar um dia de festa a Bangu que eles correram em campo, do primeiro ao último minuto.

“Quando a notícia da vitória se espalhou em Bangu, a população quase que em peso veio para as ruas. Gritos frenéticos. Hurrah! entusiásticos, e os nomes dos jogadores e de Vinhaes corriam de boca em boca. Todo mundo ria em Bangu. Nos cafés e bares, as garrafas espocavam ininterruptamente. Bandeirolas, flâmulas, pedaços de pano vermelho e branco agitavam-se no ar. Bombas, foguetes, surgiam de todos os cantos. Um entusiasmo indescritível dominava toda aquela gente banguense”.

“A população inteira queria saudar aos campeões. Queria vê-los de perto, como se fossem pessoas estranhas ao lugar. Não era o Ladislau, o Plácido, o Santana, o Médio, o Camarão, o Euclides, o Orlandinho, o Paulista, o Tião, o Ferro, o Mário, que ali vinham. Não, não eram eles. Eram sim os onze campeões que voltavam a Bangu, que traziam para Bangu a supremacia do futebol profissional, no seu primeiro ano de existência” – registrou o Jornal dos Sports.

No dia seguinte, quase a metade do operariado da Fábrica não foi trabalhar. O gerente abonou os faltosos. Entendeu logo: aquela ressaca coletiva não ocorria todo ano.

A frase

Enfim, não sou ambicioso e com o título máximo do futebol carioca, estou satisfeito.

Médio da Guia,
22 anos, meio-campo do Bangu


Em pé: Luiz Vinhaes (técnico), Sobral, Paulista, Ladislau, Tião, Plácido, Gentil, Dininho, Orlandinho e Tenente Barbosa (preparador físico). Ajoelhados: Paiva, Ferro, Santana e Médio. Sentados: Mário, Euro, Euclides, Newton, Sá Pinto e Camarão. Sobrepostos: Buza e Vivi. O primeiro time a ser campeão de futebol profissional no Rio de Janeiro.

Campeonato Carioca 1933
     
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