Rio de Janeiro, domingo, 24 de setembro de 2017 - 18h03min
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APOSTANDO NA ZEBRA

Sua torcida reunida jamais pareceu a do Fla-Flu, como exagera o hino do clube, mas o Bangu já foi grande e luta para voltar

Um bom trabalho com os juvenis e o dinheiro fácil do jogo do bicho deram o título carioca de 1966 ao Bangu. Então a inflação matou a galinha dos ovos de ouro e o Bangu foi minguando, minguando, quase sumiu. Quase. Com trabalho duro, sem dever um tostão a ninguém e ainda comprando o patrimônio que era da Fábrica Bangu, o clube está crescendo. E crescendo com os pés no chão. Formando juvenis, investindo em técnicos de gabarito – técnicos mesmo -, para começar uma lenta, gradual e segura volta aos bons tempos. Por enquanto, porém, o que se promete é que o ex-grande Bangu, mesmo afastado dos Andrade e do dinheiro do jogo do bicho, vai ser a maior zebra do próximo Campeonato Carioca. Só para começar.


Sem torcida, mas numa região carente de tudo, o Bangu dispõe de todas as condições para crescer – se não fizer loucuras

Há pouco mais de 10 anos o futebol carioca era diferente. Não havia troca-troca, os clubes ainda não estavam endividados até a raiz dos cabelos e os chamados grandes times eram seis. O presidente da Federação Carioca de Futebol já era Otávio Pinto Guimarães, a única coisa que não mudou desde 1966.

Havia mais clássicos, as rendas eram maiores, todos ganhavam com isso. Todos ganhavam com o Bangu Atlético Clube, primeiro campeão de profissionais, em 1933, o ex-grande que hoje mal tem direito a jogar no Maracanã.

Daqui a 10 anos o futebol carioca será diferente. Talvez o Bangu tenha voltado a ser grande, e não apenas por ter um grande time como o de 66, fruto do dinheiro fácil do jogo do bicho. Grande de novo porque, cortando os laços com a Fábrica de Tecidos Bangu, resolveu formar uma base sólida e adquirir, mesmo com o sacrifício do futebol, o patrimônio que nunca teve.

Em 66 todo mundo sabia de cor e salteado a escalação do time do Bangu. Uma lembrança ainda guardada nas paredes do bar sob as sociais do Estádio Proletário, onde pôsteres dos campeões de 66 e de uma equipe juvenil com Ademir da Guia perenizam os últimos momentos de glória em Moça Bonita.

Naquela época havia Paulo Borges. E, depois de chegar perto três vezes, o Bangu conseguiu enfiar três gols no Flamengo e ser campeão. Sem volta olímpica, que o falecido Almir não deixou dar, mas campeão com direito a desfile em carro aberto do Corpo de Bombeiros e festança no longínquo subúrbio carioca.

Todo mundo queria jogar no Bangu, um time que dava bichos gordos e com uma diretoria acima de qualquer suspeita. Era um time respeitado dentro e fora do campo, nos bastidores da Federação e das arbitragens. Diariamente, repórteres e fotógrafos de todos os jornais e rádios viajavam os 100 quilômetros de ida e volta para mostrar ao resto da cidade o que estava acontecendo em Moça Bonita.


Sumiço geral

Os carros do ano sumiram, substituídos por um ou outro Fusquinha velho e uma maioria de bicicletas; sumiram até os lendários carneiros que mantinham aparado o excelente gramado do Estádio Proletário; a fiação dos refletores sumiu; sumiu a imprensa. Houve até quem sugerisse a extinção do futebol profissional no Bangu.

Não se precisou chegar a tanto. O Bangu aceitou o fato de que era um clube pequeno, sem patrimônio e sem torcida, e resolveu viver como um pequeno – enquanto crescia. Paga pouco a seus jogadores, é verdade, mas paga rigorosamente em dia. Tem pouco patrimônio, é verdade, mas não deve um tostão a ninguém. E, principalmente, é comprador de tudo o que foi locatário durante anos. O velho ginásio, sua sede social e única propriedade, foi reformado e ganhou a companhia de um terreno recém-adquirido, com frente para a rua Cônego Vasconcelos. O Estádio Proletário está sendo comprado da Fábrica Bangu. Uma nova sede náutica já foi inaugurada. A Vila Hípica, onde treinava o timaço de 66, será a futura sede campestre. Para que tudo isso se tornasse realidade, o Bangu sacrificou o futebol. Salvo raríssimas exceções, ninguém ganha mais de 5 mil cruzeiros por mês. Salvo raras exceções, todos vêm das divisões inferiores. Um plano realista que começou com o ex-presidente Maurício Buscácio e vai continuar com o recém-eleito Sérgio Saraiva.

Com o apoio fundamental de Fausto de Almeida, primeiro presidente eleito pelos associados, em 57. Até então, os próprios homens da Fábrica Bangu dirigiam o clube; não passavam de meros empregados. Fausto comprou o primeiro patrimônio do Bangu – o terreno onde se localiza o ginásio – e iniciou a libertação. Por isso enaltece a atual administração:

- É a volta do Bangu às suas origens. Sempre fomos e temos de ser sempre um celeiro de craques, jogadores formados física, técnica e moralmente aqui mesmo em Bangu.

O êxito de 66 foi fruto justamente dessa filosofia. Ubirajara, Calazans, o campeão do mundo Zózimo, Fidélis, Mário Tito, Luís Alberto foram todos juvenis no Bangu.


Dinheiro a rodo

Euzébio e Castor de Andrade colocaram dinheiro em cima. Tiveram êxito, tanto que conquistaram o título carioca e o Bangu, mesmo sem torcida, tinha platéia suficiente para encher o Maracanã.

A exploração dos ovos de ouro foi intensa, mas a inflação do dinheiro fácil acabou matando a galinha. O Bangu não tinha estrutura para agüentar os Andrade e seus projetos mirabolantes.

Foi-se Paulo Borges, foram-se Aladim e Dé, mais tarde partiram Jorge Mendonça e Sidclei. Obra de Maurício Buscácio, que usou o dinheiro para evitar o caos financeiro e aplicar nos juvenis.

- O problema é ter coragem e paciência para realizar um trabalho desse tipo. O Bangu tem sofrido muito, sim, mas não demorará a mostrar uma nova geração de bons jogadores. Um, o goleiro Luís Alberto, em condições de figurar em qualquer clube brasileiro, é o maior exemplo. Cacau, Hamilton, Fernandinho e Gilberto são nomes de futuros craques.

Fausto de Almeida acrescenta que, agora, o Bangu não corre o risco de morrer por ter o olho maior do que a barriga.

- Aí está o exemplo do Botafogo, que nunca mais terá uma sede. Depois de alienar o patrimônio, compra jogadores por 2 milhões de cruzeiros cada um. O Bangu não entrou nessa e por isso se salvou. Trabalhando, consegue-se até torcida. Houve época em que o Bangu, simplesmente por jogar de manhã nos colégios com seu time de juvenis, criou uma legião de torcedores. É só querer trabalhar. Mas só o que todos sabem é inflacionar cada vez mais o futebol e depois ficar de pires na mão na porta da Loteria.

No entanto – e isso explica porque é preciso tanta paciência e perseverança para trabalhar sobre bases sólidas -, quem não sente saudades daqueles bons tempos? Neco, naquela época jogador em fim de carreira e desde então auxiliar técnico do Bangu, sente:

- Nem gosto de recordar o tempo do Dr. Castor, porque me dá um nó no coração. Seu Buscácio e seu Saraiva são gente fina, mas naquele tempo o dinheiro rolava em Moça Bonita.


Correndo muito

Não rola mais, mesmo que o técnico seja de novo o velho Alfredo González, que conduziu o time ao título de 66. Hoje ele não trabalha mais com craques consagrados; tem é de aprimorar a prata da casa. E os jogadores de fora que indicou como reforços têm, em comum, o passe livre e as pretensões salariais modestas. Gente como os desconhecidos Saúva, Ari, Cláudio e Lumumba, ou como os mais manjados Silveira, ex-Fluminense e Sport, e Jair Pereira, ex-Vasco.

Tem uma outra vantagem: todos, até aqueles que estão ainda em experiência, entregam-se com afinco à preparação física com Paulo Blanco, um jovem muito estudioso que veio do Laboratório de Fisiologia do Exercício, da UFRJ, o mais avançado e categorizado centro de pesquisas do ramo no Brasil.

- Pode parecer engraçado – diz o preparador físico -, mas o pessoal aqui está preferindo jogar com calor de 40 graus ou debaixo de chuva pesada. Eles agüentam qualquer rojão, e os outros param no meio do segundo tempo. Desde a metade do ano passado todos estão fazendo um trabalho que começa a dar frutos: eles correm tanto que são praticamente imarcáveis. Se depender de pernas, tenho certeza de que o Bangu vai fazer bonito no Campeonato Carioca.

O que pode representar a grande chance para os jogadores do Bangu, que só aceitam a pobreza do clube por falta de melhor alternativa. Profissão curta, eles não podem se dar ao luxo de esperar o clube crescer lenta e seguramente.

O zagueiro Serjão, 26 anos, um dos poucos jogadores tarimbados do time do Bangu, criou-se em Moça Bonita e não teve a sorte de seu companheiro Sidclei, transferido para o Náutico. Vai daí que anda de bicicleta e procura complementar o salário empreitando pequenas obras como pedreiro.

- Fico triste quando tenho de falar na transformação que o Bangu sofreu. Ainda cheguei a pegar o finzinho da fase boa, mas agora o jeito é a gente se virar por fora. Se os Andrade não tivessem deixado o clube, em vez de bicicleta eu estaria aí curtindo até um carrão pras morenas ficarem com água na boca.

Serjão toca em outro ponto que acha importante:

- Esse negócio de trabalho de base é muito bonito mas não dá título nem fama a ninguém. Já cansei de rezar para os Andrade voltarem, pois eles, pra começo de conversa, vão lá na Federação e mexem no formigueiro. Por isso o Bangu foi campeão em 66, pois só time não basta. Por melhor que seja.

Então, todo jogador do Bangu quer mais é se mandar de lá. Como o goleiro Luís Alberto, sempre elogiado e cobiçado. Segundanista de Educação Física, 24 anos, ele já está ficando cansado de ficar escondido lá em Moça Bonita e de ver dar em nada o propalado interesse dos grandes clubes.


Luta para subir

- Dói, sinceramente, dói a gente ver até companheiros inferiores tecnicamente em outros times. A gente trabalha, faz o máximo, e na hora H a chance foge. Dá pra chorar de raiva. Não é fácil jogar num time como o nosso. A gente aparece tão pouco para o público, a própria imprensa, que é obrigado a não falhar quando surge a oportunidade. Ninguém me vê quase jogar; aí surge uma preliminar no Maracanã e eu falho. Ninguém vai querer saber se aquela foi uma falha em mil; vão dizer é que eu sou frangueiro, inexperiente. É duro. Tem muito jogador de clube grande que devia sentir a barra no pequeno, para dar mais valor ao que conseguiram com a profissão.

Há também desses casos no Bangu. Didinho e Sérgio Cosme, por exemplo, vieram de grandes clubes, um do Botafogo, outro do Fluminense. Didinho já está arrependido de, um dia, ter achado que era melhor ser titular em qualquer clube do que reserva no Botafogo. Esteve no América Mineiro, no CSA de Maceió, no Americano de Campos, e até no futebol africano. Mas não perde a esperança:

- Vamos dar trabalho este ano. Temos sofrido e trabalhado muito, do presidente ao roupeiro, e isso nos motivou, nos uniu, nos deu força. Joguei em muitos lugares e posso garantir que poucos clubes conseguiram reunir um grupo tão homogêneo como o nosso.

Menos conformado, Sérgio Cosme chora até hoje sua saída do Fluminense, depois de brigar com um dirigente.

- Futebol, modéstia à parte, eu mostrava. Mas queriam porque queriam me comparar ao Galhardo, na época um ídolo da torcida. Esquentei a cabeça e acabei saindo. É a vida. Hoje estou aí, dando um duro danado para subir de novo.

Tal como o Bangu, o ex-grande que sonha com os pés no chão.

Fonte: Revista Placar, nº 358, 4 de março de 1977.
Repórteres: Wilson Carvalho e Luiz Augusto Chabassus.

     
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