Rio de Janeiro, domingo, 19 de novembro de 2017 - 06h37min
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TRÊS PODEROSOS SENHORES NA GUERRA DO FUTEBOL


Os três senhores que ocupam os principais lugares da pequena e acanhada tribuna de honra do estádio de Moça Bonita, em Padre Miguel, são o centro das atenções. No campo, Bangu e Bonsucesso se preparam para um jogo-treino.

Os três exercem a mesma profissão e são quase venerados pela população. A fila que se forma para cumprimentar os três líderes é imensa e formada por senhores, a maioria de cabelos grisalhos. Os três têm sempre uma palavra amiga, uma lembrança, um agrado que fazem os senhores sorrirem felizes. Para estes, pouco importa o bicho que deu ou vai dar.

O primeiro, que faz questão de ocupar a posição central entre os dois outros líderes – numa demonstração evidente de predomínio – é Castor de Andrade. Barulhento, explosivo, Castor age sempre por instinto, guiado pelas emoções e por uma inteligência viva:

- O líder é aquele que reage primeiro. Que aponta o caminho. Que toma a iniciativa. Ele pode estar até errado. Mas foi o primeiro a apontar uma solução. E ele vai ser seguido.

O segundo, mais recatado, é Carlos Teixeira Martins, o Carlinhos Maracanã, um português que chegou ao Brasil em 1937 e que parece contente em ocupar uma posição mais discreta:

- Já vi tudo na vida. Comecei a minha vida fritando sardinhas e vendendo cachaça atrás de um balcão de botequim.

O terceiro, mais jovem e aflito, é Luisinho Drummond. Muito ouro no pescoço e nos pulsos:

- Não tenho medo da velhice, mas gostaria de ficar jovem por mais tempo.


Agora, o futebol

 

Esses três senhores influentes e poderosos, que já dominavam as escolas de samba, agora entram no futebol. No Bangu, Castor – que já fez o time campeão em 66 – está contando com a ajuda de Carlinhos Maracanã, que por sua vez sempre ajudou o Madureira e continua fazendo o possível:

- Vamos emprestar cinco jogadores ao Madureira. Dispensamos o João Francisco aqui no Bangu, mas Castor e eu vamos pagar seu salário para ele ser o técnico do Madureira. Ele é um homem decente e não podemos deixá-lo desamparado.

Luisinho está ajudando o Bonsucesso:

- Sem qualquer pretensão de levar o time a ser campeão. O Bonsucesso não tem estrutura ainda para isso.

- Mas eu quero ser campeão com o Bangu – afirma Castor de Andrade. - Estamos montando um time para isso.

Um negro imenso, Válter, ex-campeão sul-americano de boxe, que Castor recolheu na miséria e o transformou em guarda pessoal, se aproxima humilde e discretamente:

- Doutor Castor, é preciso pagar o juiz do jogo-treino.

Castor pega a maleta tipo James Bond que Válter tinha nas mãos, abre e tira um maço de notas de cinco mil. Conta doze delas e pergunta:

- Foi Cr$ 60 mil que tratamos com ele? Então leva lá pro homem. Juiz tem que ser pago.

Castor de Andrade sorri:

- Rapaz, se eu fosse recuperar o dinheiro que já empreguei no Bangu daria para eu ter vários iates e várias Mercedes.

Diversão cara.

Mas é o seu divertimento. Um divertimento caro e apaixonante:

- Eu sou um passional como todo latino. Não é à toa que todos os jogadores querem renovar contrato comigo. O Carlinhos faz as coisas certas e eu bagunço tudo.

Carlinhos Maracanã, afundado numa poltrona, sorri.
 
- Você quer ver uma coisa? - continua Castor – Cheguei aqui já estava tudo organizado para esse jogo-treino contra o Bonsucesso. Aí, não sei por que, me deu na veneta de pagar bicho. Eu disse para os jogadores que se ganhassem, cada um levaria Cr$ 10 mil. O Carlinhos é isso, mas eu gosto de sempre dar um pouco mais do que aquilo que prometo, para poder também exigir um pouco mais de volta.

Realmente, Carlinhos Maracanã parece ter mais noção do valor do dinheiro. Ele ajeita os inseparáveis óculos escuros e explica:

- Acho que temos que ser profissionais. O jogador acerta seu contrato e deve cumprir suas obrigações.

Mas quando um compositor popular chega perto dele e pede que assine seu Livro de Ouro, Carlinhos Maracanã puxa do bolso um maço de dinheiro e dá Cr$ 10 mil:

- Toma para o teu Livro de Ouro.

Meio aturdido, o compositor grita:

- Seu Carlinhos, mas o senhor tem que assinar!

- Assina por mim – responde Carlinhos Maracanã, afastando-se.


Donos da comunidade

Os três são muito vaidosos. Agem o tempo todo como líderes de comunidades, com poderes para solucionar todos os problemas que lhes surgem pela frente. Dois meninos vestindo a tradicional camisa do Bonsucesso, vermelho e azul em listras verticais, pedem socorro a Luisinho:

- Perdemos o ônibus, seu Luisinho, e agora não temos como voltar para casa. Será que o senhor pode ajudar a gente?

Luisinho abre sua bolsa de couro. Tira uma nota de 5 mil e entrega para eles:

- Olha aí, isto é para voltar para casa e para o samba de hoje à noite.

O dinheiro é muito fácil nas mãos destes senhores.

Os três se orgulham da posição que ocupam, da família e do que conseguiram para ela:

- Meu filho é engenheiro, dono de uma firma – diz Castor. - Tenho dois netos maravilhosos que deseduco com o maior empenho.

- Minha filha é formada em psicologia - diz Carlinhos.

- Tenho quatro filhos – diz Luisinho.

Para onde vai, Castor de Andrade é sempre seguido por Válter, com sua ameaçadora cara de homem mau, e por Miúdo, um gigante de dois metros de altura, forte como um touro. Luisinho Drummond anda sozinho e garante:

- Acho que não tenho inimigos. Pelo menos nunca ninguém chegou perto de mim para dizer que era meu inimigo.

O cordão e o medalhão de ouro balançam no seu peito:

- Acho que ser líder não é bem como o Castor falou. Acho que é aquele que respeita para ser respeitado.

Aquele que faz o bem. Que procura ser bom e ajudar as pessoas. Esse homem vai ser seguido.
Para Carlinhos Maracanã não existe história:

- Nem sei como cheguei ao ponto em que estou. Acho que fui sendo levado. Nem me dei conta. Nem sei como cheguei.

O maior orgulho de Castor de Andrade é saber que hoje, a grande maioria dos jogadores acha que jogar no Bangu é bom. Todos afirmam que o Bangu paga em dia. Não há atraso.

- Olha, estamos indo aos poucos. Vamos chegar lá. Com a vinda do Marinho, o ataque vai melhorar e se Deus quiser vamos disputar o título de campeão carioca de 83. Se tivermos sorte, vamos ser campeões e reviver 66, quando arrasamos o Flamengo na final.


Recordar é viver

O ano de 66 está bem vivo na memória de Castor, mas ele afirma que a imagem do homem capaz de invadir o campo do Maracanã, revólver em punho, revoltado pela marcação de um pênalti contra seu time, está bem longe:

- Hoje eu seria incapaz de fazer uma coisa destas. Tenho 57 anos. Sabe, quando a gente é jovem, tem reações explosivas, impensadas. Hoje eu não faria isso. É uma loucura.

Acusado de paternalista com o futebol e com o clube, Castor afirma que já está tomando providências para desfazer essa imagem:

- Era verdade. Antigamente quando por um motivo ou outro tinha que deixar o Bangu, ele afundava. Agora estamos dando uma estrutura ao clube para que ele sobreviva sem a minha presença. O Rui, nosso presidente, está reunindo homens capazes para administrar o Bangu sem a minha presença. E, quando eu estiver, o Bangu sempre terá um pouquinho mais.

Castor de Andrade explica que tem horror a falsidade - “uma mulher tem que ter a coragem de dizer a um homem que não gosta mais dele” - e que o maior valor que um homem possui é a sua palavra:

- Por isso não entendi quando me elogiaram por amparar Rosemiro, apesar de não ter ainda assinado o contrato com o Bangu. Já tinha dado minha palavra a ele. Tinha obrigação de cumprir. Aprendi isso com meu pai e pode ter certeza de que minha educação foi nos moldes antigos. Muito respeito pelos mais velhos. Fui criado naquele estilo que os filhos só podem se servir depois do pai pegar o melhor pedaço da galinha.

Até hoje, Castor respeita seu pai, seu Zizinho, o patrono do Bangu:

- Ah, quando ele dizia: “Meu filho, vai lá e compra o fulano”. Pode ter certeza de que vou comprar. Foi assim com o Vágner e com muitos outros e vai ser sempre assim.

Mas, hoje, o mais importante para esses três senhores, líderes de comunidade são suas escolas de samba. Castor prepara intensamente sua Mocidade Independente. Carlinhos Maracanã vibra com sua Portela e Luisinho afirma que vai vencer com a Imperatriz Leopoldinense:

- Se com o Bonsucesso ainda não temos estrutura para pensar no título, pode ter certeza de que com a Imperatriz só vou acreditar que perdi na quinta-feira, quando abrirem os envelopes. Com a Imperatriz estou sempre brigando pelo título.

O que esses homens vão gastar com o Carnaval não importa; importa a satisfação de vencer:

- O samba e o futebol dão prejuízo, mas o importante é a alegria do povo – diz Luisinho.

- Não existe nada que pague a alegria daqueles crioulos – diz Castor. – Todos se abraçam, é uma festa. Eu ando com três camisas para trocar no dia do desfile. É tanto crioulo me abraçando que tenho que trocar de camisa de vez em quando.

Os três riem. Os três estão dispostos a salvar o futebol carioca.

Mas só depois do Carnaval.

Notas:
     1) Em janeiro de 1983, uma revista Veja custava 470 cruzeiros. Hoje, custa 8,90 reais. Ou seja, com 10 mil cruzeiros – gorjeta dada generosamente pelos bicheiros – daria para comprar 21 exemplares naquela época. Por isso, para efeito de comparação, 10 mil cruzeiros teria um poder de compra, em dinheiro de hoje, de aproximadamente 200 reais.
    2) No Carnaval de 1983, nem Castor, com a Mocidade, nem Carlinhos, com a Portela, nem Luisinho, com a Imperatriz, ganharam o título. A vitória ficou com a Beija Flor, mantida pelos bicheiros da família Abraão David.
    3) Em relação ao futebol, o jogo-treino entre Bangu x Bonsucesso, disputado na manhã de sábado, 15 de janeiro de 1983, terminou com a vitória alvirrubra por 3 x 0, gols de Arturzinho, Vágner e Luisão.



Repórteres: Michel Laurence e José Antônio Alves.
Fonte: Jornal do Brasil, 17 de janeiro de 1983.

     
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