Rio de Janeiro, domingo, 24 de setembro de 2017 - 18h13min
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O XERIFE SEDUTOR

Ex-zagueiro durão, Moisés mistura malandragem e charme no comando do Bangu, invicto há 15 jogos e já de olho no título

Toca do Castor, subúrbio de Bangu, zona rural, a 40km do centro do Rio de Janeiro. Uma casa de interior – jardim, piscina vazia, freezer no quintal e ocupada por um bando de homens tranqüilos, concentrados. Moisés jogava sinuca e mal me olhou. Esperei 15 minutos e só então veio ele, balançando o corpo, de calção, sem camisa, sandália nos pés. Sentou-se numa espreguiçadeira, tomou a palavra, estabeleceu a ordem. E me explicou por que o Bangu, esse time que não tem torcida, está invicto há 15 jogos e espera massacrar o Flamengo no próximo domingo, dia 26, para chegar mais perto da Taça Guanabara deste ano.

Mais que isso, Moisés Matias de Andrade, 36 anos – o Xerife, o técnico da equipe de Castor de Andrade -, carioca criado no subúrbio, com fama de machão e de violento, jogador brigão, de muitos times e personalidade forte, me mostrou o Brasil inteligente da Zona Norte – manhoso e orgulhoso, com planos modestos mas espertos. Na síntese da filosofia de Castor de Andrade, dono do Bangu e homem de negócios, de contravenção e de samba, Moisés me revelou sua obstinação: “Quero viver como rico e morrer como pobre”.

Ele nasceu na Vila Militar de Agulhas Negras, em Resende, filho de um cearense, hoje tenente da reserva. Aos 15 anos foi soltar no campo do Bonsucesso as energias de um adolescente inquieto. Virou zagueiro, estufou o peito e ganhou a posição. Trocou de time seis vezes em 18 anos e foi expulso de campo 10 vezes, bem menos do que a fama lhe atribui. Compensava, na disciplina dos horários e da presença, a mania de comandar e de exigir. Segurou os goleadores na força e na “psicologia”, e correu a vida atrás de melhores salários.

Nessa tarde calma de Bangu, sentado na espreguiçadeira e olhando firme nos meus olhos, Moisés decreta: “Sempre quis impor minhas opiniões porque me preparei para ter bom senso e acho que meu ponto de vista é sempre o melhor”. Um ditador? Eu usaria a expressão “déspota esclarecido” num caso como este. Mas o Brasil é o Brasil, e o jeitão de Moisés explica tudo. Ele é simpático, falador e sábio no comando. Não grita, é educado, explica, discute, ouve – e acaba convencendo. É capaz de conversar sobre qualquer assunto – adora ler “as coisas do momento” nos jornais e revistas, e acredita que já “doutrinou” bastante seu temperamento agressivo ao aprender, nas leituras de um pensador chinês, a ter mais paciência com os aborrecimentos da vida.

“Meu nível de aceitação atualmente é monstro”, tenta explicar. “Hoje, eu quero me dar bem com todo mundo e não ter bronca de ninguém”. Misturar um gênio explosivo com “aceitação e paciência” não é tarefa muito fácil, mas o Xerife parece gostar de aventuras – e depois, longe dele parecer bonzinho. “A verdade é que a vida fica mais fácil quando não se tem problemas financeiros. Do jeito que sou hoje, meu objetivo é viver bem e achar a vida uma maravilha”, explica.

Eu esperava encontrar uma pessoa mais truculenta e menos habilidosa quando cheguei a seu território no subúrbio, de onde ele só saiu por dois anos e meio para jogar no Corinthians e na Portuguesa, em São Paulo. Mas Moisés abriu logo o jogo. É claro que, quando jogador, dava lá as suas botinadas, tão bem que cunhou a frase que entrou para a história do futebol: “Zagueiro que se preza não ganha o Belfort Duarte” (troféu dado ao jogador que passa dez anos sem expulsão). Da mesma forma, ele nunca escondeu que sua decantada violência era exercida nos primeiros minutos de um jogo – “Nenhum juiz expulsa ninguém nos dez primeiros minutos” -, e também é verdade que a única contusão grave que provocou foi em 1971, quando acertou o célebre Jairzinho sem bola no pé direito, deixando-o no estaleiro por seis meses.

Sincero, ele admite que a fama só ajudou sua carreira. “Era uma imagem interessante”, diz. “Os atacantes ficavam preocupados com a bola e comigo. E, depois, jogador que tem medo de bola dividida acaba se machucando, é ou não é?” Eu concordo, como aliás acabam todos concordando, seduzidos por sua lógica tupiniquim. “Quando ele vem falar alguma coisa é batata: vai sempre na ferida. Quem é um pouco inteligente entende logo”, diz o centroavante Cláudio Adão, ex-colega de Moisés no Flamengo e agora seu comandado no Bangu.

Já era intenção de Moisés virar técnico de futebol antes mesmo de chegar ao Bangu, há cinco anos, já começando a pensar no fim da carreira de jogador. Em outubro de1982, ele entrou em campo para atropelar as pernas de Roberto Dinamite e impedir a vitória do Vasco; aos 48 minutos do segundo tempo, Roberto fez um gol e saiu do estádio de Moça Bonita sem saber que a carreira de Moisés (que inclui passagens pelo Bonsucesso, Flamengo, Botafogo, Vasco, Corinthians, Portuguesa e novamente Flamengo e Vasco) estava encerrada.

Mas o nosso herói já estava preparado. Castor de Andrade confessa que ficou encantado com Moisés logo que se sentou a seu lado para redigir o contrato. “Ele me disse que queria receber 20 salários mínimos. Eu disse que tudo bem. E seis meses depois percebi por quê: ele nunca me pediu aumento de salário nem reforma de contrato. A inflação se encarrega disso”, conta Castor, que hoje paga 40 salários mínimos a Moisés e em troca disso tem mais do que apenas um técnico no time: tem também um diretor, um chefe de delegação, um tesoureiro. Moisés é quem viaja para procurar jogadores, é quem contrata, é quem dispensa e é, ainda, quem segura a ira do chefe quando o time vai mal. “Eu fico furioso e cobro mesmo”, admite Castor, confessando em seguida que até hoje sempre acaba convencido por seu pupilo, a quem dedica total confiança. “Posso dizer que o Bangu hoje tem o técnico ideal”, revela.

Foi Moisés quem convenceu Castor de Andrade a lhe dar o cargo de técnico, quem o convenceu a vender em 1983 os dois maiores ídolos do Bangu, Mário e Arturzinho, e quem, depois de ter ficado fora até da Taça de Prata do ano passado, ainda teve fé no futuro do time. “Eu sabia que os dois jogadores queriam sair porque iriam ganhar com a venda e também sabia que podia formar outra equipe. Hoje, o Bangu está invicto e vai para as finais do Campeonato Carioca, que é o que realmente importa”, sentencia Moisés.

A segunda vez que encontrei o Xerife foi na Barra da Tijuca, no quebra-mar onde ele faz o que mais gosta: pesca submarina. Tem um barco pequeno no qual sai pelo menos uma vez por semana com o amigo Valter Fernandes Bessa, 37 anos – o Valtinho, salva-vidas do pedaço. “É um cara sensacional”, resume Valtinho, sem palavras para definir o amigo de aventuras no mar, com quem compartilha cervejas e lorotas. No clube, seus amigos mais chegados são os auxiliares Alfinete e Paulo Lumumba, também ex-jogadores.

Ele estava jogando cartas com Paulo Lumumba quando me recebeu em sua residência no subúrbio de Rocha Miranda, um sobrado, onde mora com a mulher Naida Maria de Andrade, 35 anos, e os filhos Moisés Matias de Andrade Jr., de nove, e Vanessa, de seis. É a casa da sogra, para a qual se mudou há seis anos, quando voltou de São Paulo, e de onde pretende sair até dezembro, se a casa que vai começar a construir na Barra estiver pronta. Ele já tem o terreno, a construção será um presente de Castor de Andrade.

Moisés passa pouco tempo com a família, viaja muito à procura de jogadores, contratando, observando. A mulher, Naida, com quem se casou há 12 anos, já está sentindo a necessidade de fazer alguma coisa nas horas em que o marido está fora. Diz que quando as crianças crescerem um pouco mais vai estudar inglês, fazer uma faculdade. Não tem queixas do marido, gosta de acompanhá-lo nas saídas noturnas – geralmente numa casa de samba, para dançar. Diz que não é do tipo que fica pressionando e fiscalizando, e dá a Moisés a mesma liberdade que recebe: “Ele não me cobra nada”. Naida ri quando pergunto se Moisés é tão machista como dizem, e responde que não. Mas conta, logo depois, que foi apenas uma vez à concentração do Bloco das Piranhas, grupo carnavalesco em que Moisés, todo ano, desfila de peruca e cílios postiços, travestido de mulher. “Ele não gosta. Tenho a impressão de que fica constrangido. A mãe dele também não podia ir”, conta.

Com exceção deste ano, quando o Bangu foi desclassificado na primeira fase do Campeonato Brasileiro e ele se sentiu “traumatizado” e sem cara para desfilar, Moisés costuma brincar o Carnaval ao velho estilo: sai na Portela, no Bloco das Piranhas e ainda dança as quatro noites em clubes. E acha normal se fantasiar de mulher no Bloco, uma grande brincadeira em que não é permitida a entrada de gays (“Não ia ficar bem, o que iam pensar?”). Uma posição tão contraditória quanto o fato de não admitir a presença das mulheres no futebol (“Elas não sabem jogar. Futebol é coisa pra homem”). É capaz de jurar por Deus que, em seus 18 anos de futebol, jamais presenciou uma relação homossexual entre os jogadores. “Com exceção dos goleiros”, brinca. Mas, certa vez, foi vestido de Tarzan, só de sunga, ao baile gay do Canecão (“Eu não sabia que era aquilo”, justifica-se), e não tem medo de revelar as simpatias musicais pelo cantor Ney Matogrosso.

Sua mulher Naida não reclama do assédio de outras mulheres, mas Moisés gosta de fazer charme. E de contar vantagem. Parece um galanteador incurável: “O que as minhas namoradas vão dizer ao descobrir que sou casado?”, graceja. Quando entra em seu Puma branco e sai em alta velocidade pelas ruas de Bangu, Rocha Miranda e Madureira, é um alvoroço: o Xerife vem aí.

Em sua persistente e obstinada carreira ele sonha, como todo técnico, com o posto da Seleção Brasileira, da qual já foi zagueiro titular em 1973. Não parece ter pressa. Quer ganhar do Flamengo neste domingo, num jogo que considera fundamental para os planos que o modesto Bangu faz para chegar ao título carioca. Leva fé no time que montou e na dança entre os dois papéis que exerce: técnico e dirigente: “Eu sei das coisas”, informa.

Quem será o próximo presidente da República, então, pergunto. “Se fosse hoje a eleição, o vencedor seria o Maluf. Mas em cinco meses tudo pode acontecer. O Maluf ganha se o Figueiredo ajudar tem chances de convencer uma parte do PT e do PTB. O Tancredo me parece muito passivo”, analisa. Para Moisés, nenhum líder pode ser passivo – e lá em Bangu parece que a união de dois líderes tão ativos ainda não provocou atritos. Ele e Castor de Andrade talvez tenham descoberto que saíram da mesma fórmula do computador: têm a mesma paixão para dominar o mundo. E um algo mais que os transforma em eficientes sedutores: uma elegância, fineza e simpatia digna de cavalheiros. Pelo telefone, na última de nossas conversas, Moisés atendeu dizendo “Alô, princesa”, e desligou me convidando para uma cerveja, um passeio de barco e uma partida de buraco.

É a cara do Brasil
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Repórter: Regina Echeverria.
Fonte: Revista Placar, 24/08/1984.

     
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