Bangu Atlético Clube: sua história e suas glórias

Maracanã, 31 de julho de 1985

Arte Bangu
O Bangu saúda a torcida, que lotou o Maracanã numa quarta-feira à noite, para a grande decisão do Brasileiro-85.
O Bangu saúda a torcida, que lotou o Maracanã numa quarta-feira à noite, para a grande decisão do Brasileiro-85.

Em raras ocasiões a sorte e o azar evidenciaram-se com tanta nitidez num jogo de futebol quanto naquela noite de quarta-feira, no Maracanã, quando duas “zebras” disputaram a final do Campeonato Brasileiro de 1985.

Depois de cumprir uma campanha brilhante em 30 jogos, com 20 vitórias, 7 empates e apenas três derrotas, o Bangu ganhou o direito de decidir o título em jogo único em casa.

O Coritiba, em 28 jogos, tinha conseguido apenas 12 vitórias, 6 empates e 10 derrotas. Além disso, chegou à decisão com um saldo negativo de menos 2 gols.

Talvez por essa discrepância nos números, o favoritismo todo tenha ficado para o alvirrubro. Fora isso, o Bangu tinha um jogador capaz de desequilibrar: o camisa 7 Marinho estava “voando” em campo.

Outro ponto favorável era o Patrono Castor de Andrade que, em meros cinco anos, tinha transformado o Bangu numa potência do futebol nacional. Mesmo que o Coritiba fosse um exímio “ferrolho”, que eliminara o Atlético Mineiro nas semifinais, o clima de “já ganhou” era inevitável.

Pelo menos um milhão de pessoas concentradas em Bangu e nos bairros periféricos da Zona Oeste apenas aguardavam o desfecho do jogo para iniciar um Carnaval no mês de agosto. Emoldurada por faixas nas cores vermelho e branco, a sede social do Bangu abrigava 15 mil litros de chope, prontos para serem consumidos na festa da vitória. Nas ruas, cartazes e faixas agradeciam a Castor de Andrade, o grande benemérito do bairro.

Naquela quarta-feira, Castor fretou um trem de oito vagões e dezenas de ônibus para levar a torcida ao jogo no Maracanã. Generoso, Castor tinha dado um carro Monza e uma casa em Jacarepaguá para o craque Marinho durante a campanha daquele Brasileirão, tão empolgado tinha ficado com as exibições da grande estrela do time.

Mas Castor de Andrade, até por ser o principal bicheiro do Rio de Janeiro, sabia até que ponto a sorte e o azar influenciam a vida de qualquer pessoa. Um número errado faz toda diferença entre acertar no milhar e enriquecer instantaneamente ou perder a aposta no jogo do bicho. Imagine, então, o azar que seria perder um pênalti numa decisão de Campeonato?

Foto do jogo

A final que começou em julho e só foi terminar em agosto

No jogo mais importante de sua vida esportiva, o Bangu chegou atrasado ao Maracanã. Tantos eram os carros ao redor do estádio, tamanho era o engarrafamento que o ônibus do clube não passava mais. Os jogadores desceram em meio ao trânsito e correram rumo ao portão de entrada. Os torcedores, vendo aquela correria toda, se admiraram: “Marinho você não vai jogar?”

- Estou indo para o vestiário agora! – respondia, bem humorado, entre os carros.

Invicto há 32 jogos, o Bangu estava muito nervoso no 1º tempo. Sem saber o que fazer com as disparadas do meia Toby, os zagueiros apelavam para as faltas. A torcida apoiava, cantando o samba da Mocidade Independente, campeã do Carnaval daquele ano. Mas o time não correspondia. Enfim, aos 26 minutos, Toby parte com a bola dominada para a área e o meia Lulinha dá um “rapa” por trás. Falta perigosíssima contra o Bangu.

Índio enche o pé, a bola desvia levemente no rosto do zagueiro Jair e entra no canto oposto do goleiro Gilmar, que fica estático. Era gol do Coritiba. Era tudo que não poderia acontecer.

Mas aquele não era um time que se deixava abater. Era a sétima vez durante o Campeonato Brasileiro que o time saía atrás do placar.

Aos 36 minutos, o Bangu tem uma cobrança de falta. Expectativa no Maracanã. Marinho bate com categoria, mas o goleiro Rafael espalma à corner. Na cobrança, a zaga do Coritiba afasta para frente da área, Lulinha chega batendo de primeira, a bola desvia em João Cláudio e engana Rafael. O lateral André percebe o pior para seu time e coloca as duas mãos na cabeça. O estádio vibra! Era o gol de empate! “Vai à loucura a galera no Maracanã” – narrava Galvão Bueno na transmissão da Rede Globo para todo o Brasil. Ufa! O time de Moisés poderia ir para o vestiário em igualdade de condições.

Foto do jogo

O 2º tempo foi um verdadeiro massacre. Ficou evidente a superioridade do Bangu. E começou a aparecer a cada lance, a cada chance, a figura emblemática do bigodudo goleiro Rafael, do Coritiba.

Os minutos passam, o Bangu não consegue o gol da vitória. A torcida se impacienta com o atacante João Cláudio e pede a entrada de Pingo.

Moisés obedece. Ele poderia ser fundamental naquele jogo de ataque contra defesa. A cada minuto, a impressão era de que o alvirrubro estava mais próximo do gol.

Depois de muito pressionar, finalmente, o Bangu conseguiu um contra-ataque rápido. Marinho foi lançado por Lulinha, correu em direção à Rafael, driblou com sua ginga o intransponível goleirão. Embaixo da meta tinha apenas Heraldo defendendo o Coritiba. Marinho foi mais esperto, rolou por baixo das pernas do zagueiro e saiu para comemorar o gol da virada, do título, do “bicho” gordo do doutor Castor e o seu passaporte para a Copa do Mundo do México, em 1986.

Gol do Bangu! Marinho faz o gol do título: 2 a 1 aos 39 minutos do 2º tempo, numa arrancada fulminante.
Gol do Bangu! Marinho faz o gol do título: 2 a 1 aos 39 minutos do 2º tempo, numa arrancada fulminante.

O Maracanã estava em festa. O bandeirinha Osvaldo Campos correu para o meio, confirmando o gol. Mas o árbitro Romualdo Arppi Filho, “por sua conta e risco” – como disse o narrador Galvão Bueno -, resolveu marcar um impedimento que as câmeras da TV não identificaram. Aos 39 minutos do 2º tempo, o gol de Marinho seria definitivo.

O genial Marinho sai para comemorar o segundo gol do Bangu, anulado inexplicavelmente pelo árbitro Romualdo Arppi Filho, que viu um impedimento que sequer foi focalizado pelas várias câmeras de TV.
O genial Marinho sai para comemorar o segundo gol do Bangu, anulado inexplicavelmente pelo árbitro Romualdo Arppi Filho, que viu um impedimento que sequer foi focalizado pelas várias câmeras de TV.

O empate levou o jogo à prorrogação, onde novamente só havia uma equipe no ataque, um único time buscando a vitória a qualquer preço. O Bangu foi ainda mais à frente. Moisés tirou Lulinha e colocou Gilson Gênio. Eram 11 jogadores contra um único goleiro, fazendo milagres lá atrás. Os jogadores do Coritiba pareciam confiar demais na sorte.

Aos 4 minutos do 1º tempo da prorrogação, Rafael faz novo milagre, buscando uma bola chutada por Mário, de voleio, quase na linha do gol. Pingo pega o rebote, cruza e Lulinha desperdiça a cabeçada.

No 2º tempo da prorrogação há outro desses lances que deixam o torcedor com o coração na mão. Lulinha lança para Marinho dentro da área. O ponta mata no peito, fica sem ângulo, Rafael salta para interceptar, mas o camisa 7 chuta na diagonal. Ocorre o inacreditável: a bola rola mansamente por toda linha do gol e vai pra fora. O Coritiba tinha razão em confiar na sua sorte.

Veio, então, a decisão por pênaltis, quando já passava da meia-noite. O mês de julho tinha terminado, começava agosto – popularmente conhecido como “mês do desgosto”.

As cobranças se sucediam com êxito. Nenhum banguense tinha medo do goleirão Rafael. Da mesma forma, que nenhum paranaense era parado por Gilmar.

Assim, Gilson Gênio fez 1 a 0; Índio empatou em 1 a 1.

Pingo fez 2 a 1. Marco Aurélio empata 2 a 2, mesmo com Gilmar indo no canto certo.

Baby faz 3 a 2, Édson iguala em 3 a 3.

Mário bate mal, no meio do gol, mas Rafael quis escolher o canto e leva o quarto gol. Lela bate e também faz: 4 a 4.

Marinho, com grande categoria, faz 5 a 4. Vavá, que entrou só para bater o pênalti para o Coritiba, era um zagueiro de poucos recursos. Gilmar poderia ter esperado a cobrança. Não pular para lado nenhum. Ficar no meio. Foi justamente no centro do gol que Vavá chutou. Mas Gilmar, infelizmente, saltou antes para um dos lados. Perdia a chance de fazer a defesa mais fácil e mais importante de sua vida: 5 a 5.

Era a decisão mais emocionante de todas as finais de Campeonato Brasileiro. Cobranças alternadas de pênaltis.

O ponta-esquerda Ado, 22 anos, se prontificou a bater. Antes da partida, o ponteiro imaginava que aquela poderia ser sua despedida do time do Bangu. Em seus planos figurava uma grande atuação, que lhe serviria como passaporte para um clube de maior expressão e para salários superiores aos atuais. Sua cobrança foi de entristecer quem gostava do bom futebol: entortou demais o pé, deslocou Rafael, mas bateu para fora. O Maracanã ficava em silêncio. O Bangu era vítima do maior azar que um clube já teve em seu

O fim do mundo em 1985: Ado, camisa 11, perde o pênalti e o Bangu desperdiça a grande chance de sua história.
O fim do mundo em 1985: Ado, camisa 11, perde o pênalti e o Bangu desperdiça a grande chance de sua história.

Gomes cobrou o sexto para o Coritiba. Gilmar pulou no canto certo, mas não pegou: 6 a 5. Os paranaenses venciam o Campeonato que parecia destinado a ser dos cariocas.

"Meu Deus, que vergonha! Não posso mais ficar no Bangu. Vou largar tudo. E minha mãe, meu pai, meus irmãos, o que vão dizer disso? Que vergonha. Meu Deus, destruí o sonho de milhares de pessoas” – chorava Ado.

Castor falou pouco: “Jogamos melhor, mas faltou um mísero gol. Nos pênaltis, a sorte é que decide”. Ou o maldito azar.

“O gol foi legal. Tenho certeza. Eu vim de trás. O bandeirinha também achou, tanto que correu com a bandeira arriada. Até o Rafael pensou que a jogada estivesse correta. Saiu em cima de mim com decisão. Só o juiz viu impedimento. O Bangu mostrou que tem um time para ser campeão. Foi o melhor de todos. O Coritiba jogou pensando apenas no empate, para decidir nos pênaltis. O Gilmar não teve o menor trabalho. Sempre acontece isso. O time melhor chega nos pênaltis desanimado, porque lutou para vencer no tempo normal. O outro, não. Já estava preparado para este tipo de decisão e acaba vencendo” – reclamava Marinho, o “Bola de Ouro” do Brasileiro de 1985; o último jogador a deixar o Maracanã naquela madrugada de 1º de agosto...

Ficha técnica
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As notas que os banguenses receberam da “Revista Placar” no Campeonato Brasileiro de 1985

Jogador
Posição
BAC
1 x 1
INT
BAC
4 x 1
MIX
BAC
2 x 0
VAS
BAC
1 x 1
MIX
BAC
3 x 1
VAS
BAC
2 x 1
INT
BAC
1 x 0
BRA
BAC
3 x 1
BRA
BAC
1 x 1
COR
Média
Gilmar
Goleiro
6 7 7 7 7 8 10 8 7 7,44
Márcio Nunes
Lateral
5 8 7 6 6 7 6 4 4 5,88
Jair
Zagueiro
5 6 8 6 6 - 7 7 8 6,62
Oliveira
Zagueiro
5 6 7 - 6 7 7 9 7 6,75
Baby
Lateral
6 5 8 7 6 7 7 8 6 6,66
Delacir
Meia
4 - 6 - 5 6 - - - 5,25
Lulinha
Meia
6 6 6 6 7 8 7 7 8 6,77
Mário
Meia
5 7 9 7 8 7 7 8 8 7,33
Marinho
Ponta
7 9 8 8 7 7 6 10 9 7,88
Pingo
Ataque
6 4 6 7 5 - - 6 7 5,85
Ado
Ponta
5 - 8 8 7 7 6 10 7 7,25
João Cláudio
Ataque
6 6 9 7 6 7 5 - 4 6,25
Gilson Gênio
Ponta
6 5 - - - - 5 5 - 5,25
Israel
Meia
- 8 8 5 7 8 7 8 8 7,37
Cardoso
Zagueiro
- - - 6 - 7 - - - 6,50
Velto
Lateral
- - - - - 4 - 6 - 5,00

Marinho foi o jogador com a melhor média de pontos entre todos que disputaram o Campeonato Brasileiro de 1985 e fez jus à Bola de Ouro e também à Bola de Prata, por ser o melhor ponta-direita da competição.

Baby foi o melhor lateral-esquerdo e Ado foi o melhor ponta-esquerda do Brasileiro de 1985.

Gilmar, Lulinha, Mário, Oliveira e Israel ficaram no “quase”, perderam a chance de ganhar a Bola de Prata da revista Placar por alguns décimos de desvantagem nas posições de goleiro, meia-armador, ponta-de-lança, quarto-zagueiro e médio-volante.