Bangu Atlético Clube: sua história e suas glórias

Campos Sales, 24 de setembro de 1933

Arte Bonsucesso 0 x 5 Bangu

Todo mundo sabe que o Bangu foi o campeão carioca de 1933. Mas, pouca gente sabe o quanto o título esteve ameaçado. Depois de um início arrasador, o time alvirrubro decaiu de forma assustadora, perdeu a força e, se ainda mantinha a ponta da tabela, se complicava totalmente na disputa do Torneio Rio-São Paulo, disputado paralelamente.

É verdade que aquele time, que era a grande surpresa do ano, não tinha um técnico. O Tenente Jayme Mathias Ricão, preparador físico, era quem comandava a turma. Mas se sobrava disciplina, faltava esquema tático.

Basta dizer que nos últimos sete jogos, o Bangu tinha conquistado uma única vitória, dois empates e perdido quatro vezes. Ou seja, era preciso fazer alguma coisa.

E a diretoria fez. Contratou o famoso técnico Luiz Vinhaes, que estava no Fluminense. Vinhaes era simplesmente o homem que dera o Campeonato de 1926 ao São Cristóvão e em 1932 fizera com que a Seleção Brasileira conquistasse a Copa Rio Branco em cima do poderoso Scratch Uruguaio.

“Luiz Vinhaes largara o Fluminense, cansado de lutar com jogador branco, de boa família, cheio de chiquê. Os pretos do Bangu, outra coisa: simples, modestos, de alma aberta, sem complicações. Respeitando Luiz Vinhaes, ouvindo-o de cabeça baixa. Vinhaes pegara um scratch de desconhecidos, o scratch da Copa Rio Branco, com uma porção de pretos como eles, derrotara três vezes os uruguaios, campeões do mundo. Por isso o que Vinhaes dizia em Bangu era o que se fazia” – escreveu o cronista Mário Filho.

O treinador chegou no início de setembro, logo após uma derrota para o São Bento, pelo Torneio Rio-São Paulo. Chegou prometendo vencer cinco partidas seguidas e fez uma aposta com os jornalistas. Ganhar os cinco próximos jogos não seria fácil. Pela frente o Bangu teria Bonsucesso, Portuguesa-SP, Flamengo, Santos e Ypiranga (SP). Por isso, tinha muito cronista esportivo achando que iria levar um dinheiro fácil do técnico.

Vinhaes melhorou a alimentação dos jogadores e aperfeiçoou a preparação física. Há detalhes deliciosos de como ficou a concentração do Chalé dos Ingleses, na Estrada do Engenho, depois da chegada do treinador.

No dia da sua estreia contra o Bonsucesso, no campo da rua Campos Sales, Vinhaes colocou um terno branco, uma camisa azul-marinho de casimira. Era uma espécie de “lord inglês no calor dos trópicos”.

Após o apito inicial, o que se viu era um outro Bangu. Se, no 1º turno, o time penara para vencer o Bonsucesso por 4 x 3, agora dava baile.

Ajudado pelo péssimo dia do goleiro Raymundo, o Bangu abriu o placar. Orlandinho, o novo ponta-esquerda, foi cruzar para a área e acabou acertando a bola no canto direito do arco.

Logo depois, Orlandinho cruzou mais aberto. Ladislau chegou de cabeça, na corrida, e ampliou para 2 a 0.

Não era típico de Ladislau marcar gols de cabeça. Por isso, ao receber um passe rasteiro de Paulista, ele ajeitou a bola e deu uma bela “tijolada” para marcar o terceiro gol bem a seu estilo: furando as redes.

O 1º tempo estava liquidado: 3 a 0.

Na etapa final, Plácido chutou bem no alto para fazer 4 a 0 e, enfim, o dono da tarde, Ladislau, fez um gol para entrar para a história. O “Tijoleiro” recebeu a bola na esquerda, driblou os dois zagueiros do Bonsucesso, passou também pelo goleiro e entrou com bola e tudo no arco: 5 a 0!

Na volta para Bangu, Vinhaes já sabia que tinha o time nas mãos. Ganhar a aposta dos jornalistas não seria tão difícil, muito menos alcançar o tão sonhado título de campeão carioca.

Uma manhã na concentração do Bangu

Luiz Vinhaes
Luiz Vinhaes

Às 7 horas, Vinhaes tocava a sineta. Os jogadores levantavam-se, calçavam os seus sapatos de tênis, enfiavam-se nos calções, tratavam de se apressar, sabiam que Luiz Vinhaes os estava esperando na estrada. Não tomavam café, o café ficava para depois.

Todos os dias a mesma coisa. Só tinham estranhado a primeira vez. Também Luiz Vinhaes não dissera nada, guardara segredo até o último instante. Aí apontara para uma elevação, lá no fundo da paisagem, o morro do Engenho. Era mais uma ladeira do que um morro. Ficava longe, porém, uma légua, ida e volta, os jogadores achando que nunca chegariam, que não iam agüentar.

Luiz Vinhaes foi logo dando as costas, apressando o passo. A ida seria assim, numa marcha. A volta, não. Luiz Vinhaes desceu a ladeira correndo, sem esperar por ninguém, continuou correndo, não se virando uma só vez para ver se os jogadores vinham atrás dele. Vinham, não havia dúvida.

O sol já alto, batendo de cheio na cabeça, no peito, nas costas nuas de Vinhaes, dos jogadores, todos suados, vermelhos, pegando fogo. Quando chegassem ao Chalé dos Ingleses encontrariam a mesa posta. Mas precisavam descansar um pouco, esfriar o corpo, meter-se debaixo do chuveiro.

Antes do café, a gemada. Luiz Vinhaes colocava uma gema de ovo, crua, numa colher de sopa, espremia um pouco de limão em cima. Os jogadores, enfileirados, aproximavam-se um por um, abriam a boca, engoliam a gema do ovo. E podiam, então, sentar-se em volta da mesa comprida, tomar o seu café com leite, farto, muito pão, muita manteiga.

Mário Filho
O Negro no Futebol Brasileiro (1947)
Ficha técnica

Campeonato Carioca 1933

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