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Maracanã 20 de novembro de 1966


A “Última Hora” crucificou o goleiro Manga e estampou na manchete: “Tarde dos grandes frangos”. Abaixo, a fotografia do terceiro gol do Bangu, marcado de cabeça por Paulo Borges.

Era uma partida fundamental para as pretensões do Bangu no Campeonato Carioca de 1966. No sábado, o Flamengo derrotara o Vasco por 2 a 0 e abrira três pontos de vantagem na liderança. No domingo, o alvirrubro tinha a obrigação de vencer o Botafogo, para diminuir a diferença do Fla para apenas um ponto.

Foi uma partida atípica. Apesar de o Bangu contar com um elenco de primeira qualidade, o Jornal do Brasil pôs na sua manchete: “Bangu mereceu vencer, mas Manga e juiz ajudaram”.

Manga era o goleiro do Botafogo à época e o juiz era Aírton Vieira de Morais. Analisando as descrições dos jornais, nenhum deles menciona a palavra “suborno”, embora desconfiem que duas atuações tão desastrosas de Manga e de juiz simultaneamente pudessem estar ligadas a algum “incentivo” vindo da família Andrade.

O “clássico” não foi disputado no Maracanã, mas sim em São Januário, e o público foi diminuto: pouco mais de 3 mil pessoas foram ao estádio do Vasco.

Logo aos 2 minutos, o Botafogo reclamou, com razão, de um pênalti não marcado. Roberto entrou na área e foi derrubado por trás por Fidélis. O juiz fez “vista grossa” e deixou o jogo prosseguir.

Airton Vieira de Morais seguiu se equivocando, somente para um lado. Aos 28 minutos, anulou um gol de Roberto, aparentemente legal. Segundo explicou depois, ele marcou “falta técnica” a favor do Bangu porque Parada (nessa temporada vestindo a camisa do Botafogo) gritou “deixa” e a defesa banguense parou intuitivamente.

O empate em 0 a 0 também não era um bom resultado para o Bangu e o juiz já tinha feito o possível e o impossível para ajudar o time do técnico Alfredo González. Aos 33 minutos, então, foi a vez do goleiro Manga dar sua contribuição.

O zagueiro Dimas recuou uma bola para Manga. De forma bisonha, ele deixou a pelota passar por baixo de suas pernas. Quando pensou em correr atrás, Paulo Borges já tinha surgido como um raio e empurrado a bola para as redes vazias. Gol do Bangu: 1 a 0.

“Confesso que minha primeira falha foi fatal e tirou o entusiasmo dos companheiros”, lamentava-se Manga aos repórteres das rádios no intervalo.

O cronista Nelson Rodrigues viu no primeiro gol do Bangu uma obra do “sobrenatural de Almeida”:

“Fosse o Botafogo o maior escrete do mundo e não sobreviveria a esse golpe. Seus jogadores se entreolhavam estarrecidos. Eles não entendiam nada e ninguém entendia nada. No meu canto, na tribuna de imprensa, eu não sabia se tal frango podia ser considerado uma falha humana ou uma interferência do sobrenatural. Um místico veria ali, talvez, um milagre, desses que provam a imortalidade da alma e a existência de Deus”.

Manga ainda seria levaria outro gol. Aos 43 minutos, Aladim cobrou falta com perfeição, sem chances para o goleiro alvinegro: 2 a 0.

No 2º tempo, com o Botafogo completamente batido, o Bangu administrou o placar e impôs um jogo bem melhor que o rival. Até que, aos 34 minutos, Manga reprisou uma falha que já atrapalhara a Seleção Brasileira na partida contra Portugal, durante a Copa de 1966. Cruzamento para a área, o goleiro espalmou para o meio. Paulo Borges, de cabeça, completou para o gol vazio: 3 a 0. Quem já viu o primeiro gol português, feito por Simões, diante do Brasil, em Liverpool, tem a ideia exata de como foi o terceiro tento banguense.

O “bicho” pela vitória foi de 150 mil para cada jogador. Mas, Castor de Andrade, por iniciativa própria, ofertou mais 200 mil para cada um dos onze titulares, numa prova clara de que dinheiro não era problema em Moça Bonita naquela época.

Campeonato Carioca 1966
     
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