Bangu Atlético Clube: sua história e suas glórias

Maracanã, 18 de dezembro de 1966

Arte Bangu 3 x 0 Flamengo
Guerreiros que não “amarelavam” na hora H: Mário Tito, Ubirajara, Luís Alberto, Ari Clemente, Fidélis e Jaime, de pé. Paulo Borges, Cabralzinho, Ladeira, Ocimar e Aladim, agachados.
Guerreiros que não “amarelavam” na hora H: Mário Tito, Ubirajara, Luís Alberto, Ari Clemente, Fidélis e Jaime, de pé. Paulo Borges, Cabralzinho, Ladeira, Ocimar e Aladim, agachados.

A final do Campeonato Carioca de 1966 colocou frente a frente duas equipes bem distintas. De um lado, o Flamengo – amparado por sua enorme torcida, mas com um time tido como inferior; do outro, o Bangu – melhor elenco do Rio de Janeiro, mas sempre perseguido pelo azar nas decisões.

Durante a semana, muito se falou que o Flamengo ganharia pela tradição da camisa, pelo apoio gigantesco que teria dos milhares de torcedores e que o Bangu seria tri-vice.

Do lado do Bangu, o técnico Alfredo González não se assustava. Já tinha atuado pelo Flamengo nos 30. Estava confiante na equipe que vinha destroçando seus adversários, com uma média incrível de 2,7 gols por jogo. Fora isso, tinha a vantagem do empate, o Bangu tinha 30 pontos contra 29 do Fla.

Mas faltava ainda quebrar a invencibilidade do adversário. Por isso, a promessa era de que o Bangu iria jogar para ganhar.

Depois de 33 anos, a confiança no título era tanta que o clube já tinha organizado a festa da vitória.

“Para incentivar o time, agrupados do lado direito das tribunas, vão se reunir as baterias de cinco escolas de samba: Unidos de Padre Miguel, Mocidade Independente de Padre Miguel, Unidos de Bangu, Vai Quem Quer e Relâmpago. Para o transporte de cerca de 60 mil torcedores do bairro, que tem 240 mil habitantes, foram convocados oito caminhões da fábrica, fretados 16 ônibus e um trem especial da Central. Para transportar os foguetes, foi alugado um caminhão. Duas orquestras foram colocadas de sobreaviso, fora a banda da Fábrica Bangu. Também a Administração Regional de Bangu cedeu 30 homens para a organização das festas, inclusive colocando gambiarras ao longo da Avenida Cônego de Vasconcelos. O Carnaval em Bangu já está preparado” – contou o Jornal dos Sports, na edição do dia do jogo.

No Maracanã, às 18 horas, quase 150 mil pessoas se espremiam para ver quem levaria o título. Estima-se que 120 mil gritavam “Mengo, Mengo!”. Mas os banguenses não eram poucos. Talvez nunca tantos alvirrubros tenham ido a um estádio.

O Bangu comemora o primeiro gol no Maracanã.
O Bangu comemora o primeiro gol no Maracanã.

“Eles eram em número menor, eram abafados por vezes pelo barulho ensurdecedor dos seus opositores, que são realmente a maior torcida do Brasil, mas também traziam as suas charangas e as suas faixas, e o que é mais importante, traziam a certeza absoluta que seriam os campeões, pois eram os melhores, e isso não apenas desse, mas dos últimos três ou quatro anos” – escreveu o cronista Paulo Carneiro à Revista do Globo.

A renda foi recorde: 222 milhões de cruzeiros para um público de 143.978 pessoas, fora os milhares de “caronas” (gíria da época) e os associados banguenses (o clube detinha o mando de campo) que não pagaram ingresso.

No entanto, quem não foi ao estádio fazer parte desta massa humana, pode-se reunir em volta da televisão para assistir a transmissão pela TV Rio, canal 13, com narração de Luiz Mendes. Antes, porém, tiveram que assistir à “Praça da Alegria”, de Ronald Golias. Eram outros tempos...

O Bangu começou nervoso, fruto da pressão que a torcida rubro-negra fazia. Silva cabeceou alto no canto, Ubirajara saltou, espalmando a bola, que ainda se chocou na trave. Um susto! Se fosse gol, o panorama da partida se modificaria.

O Fla ainda perdeu algumas chances antes que o alvirrubro se encontrasse e jogasse o seu melhor futebol. Eram decorridos 23 minutos quando o Bangu atacou: a bola foi de Cabralzinho a Aladim, que passou a Ocimar, que chutou forte da meia lua da grande área. O goleiro Waldomiro espalmou, mas para dentro do gol: 1 x 0.

O Fla estava no sacrifício. Logo nos primeiros minutos, Carlos Alberto e Nelsinho se contundiram e, como não podia haver substituições, ficaram em campo, manquitolando, tentando ajudar.

Passados três minutos foi a vez de Aladim: ele recebeu um passe magistral de Jaime, livre, correu pela esquerda e chutou rasteiro: bola na rede. Ninguém mais tinha dúvidas de quem seria o vencedor. Foi ainda o Bangu que teria mais duas oportunidades para marcar. Numa delas, Aladim, frente a frente com Waldomiro, errou a bola, deixando escapar pela linha de fundo.      

Nos vestiários, Alfredo González sabia que o Flamengo já não oferecia perigo. Tinha era que evitar a ansiedade dos jogadores, ávidos por darem a volta olímpica e esquecendo-se que ainda tinham 45 minutos pela frente.

Aladim de olho em Carlos Alberto. O jovem ponta-esquerda foi o melhor jogador da final.
Aladim de olho em Carlos Alberto. O jovem ponta-esquerda foi o melhor jogador da final.

Para dar maiores alegrias à torcida, logo aos 2 minutos do 2º tempo, Cabralzinho esticou uma bola para o artilheiro Paulo Borges. O “Risadinha”, livre, chutou cruzado para vencer o goleiro Waldomiro: 3 x 0. Agora, sim, a torcida podia soltar o grito preso há 33 anos.

Com a vitória garantida, o Bangu tinha que fazer o tempo passar. O Flamengo, no entanto, sem a mínima chance de marcar ao menos um gol tinha outros planos: “melar” o título alvirrubro.

Eis que, aos 26 minutos do 2º tempo, começou a maior briga da história do Maracanã, explicada detalhadamente pelo jornal A Tribuna:

“Aos 26 minutos, Paulo Henrique e Ladeira trocaram pontapés no meio-campo e o jogador do Flamengo queixou-se de ter levado um tapa no rosto. Almir, nas proximidades, veio correndo feito um louco e depois de procurar Ladeira, deu-lhe um soco que pegou de raspão.

Ladeira correu e Almir saiu atrás, perseguindo-o. Quando Ladeira passava perto de Itamar, este pulou com os dois pés em seu peito, escorando-o. Ladeira, inteiramente grogue, caiu ao chão e disso se aproveitou Almir para chutar sua cabeça, num bolo de jogadores.

O conflito degenerou-se com quase todos os jogadores brigando. A polícia só entrou em campo para aumentar a confusão e agredir fotógrafos. Almir chegou a ir até a margem do campo e ali fez sinais indecorosos para a torcida do Bangu. Depois voltou até o meio de campo porque não estava expulso.

O juiz já estava decidido a expulsar apenas Paulo Henrique e Ladeira, quando Ubirajara foi até Almir para dizer alguma coisa e Almir respondeu com um soco que derrubou o goleiro. Acontece que o atacante do Flamengo ficou rodeado por jogadores do Bangu e apanhou muito de Ubirajara, Luís Alberto e Ari Clemente, pois só depois é que chegaram os seus companheiros.

Almir saiu de campo, mostrando a camisa. O campo foi invadido por jornalistas e fotógrafos e o juiz Aírton Vieira de Morais deu a partida por encerrada, pois anunciara ter expulso cinco flamenguistas e quatro banguenses”.

Jaime e Almir na batalha da final de 66.
Jaime e Almir na batalha da final de 66.

Perplexos, os milhares de torcedores assistiram toda a selvageria até, ânimos serenados e com o Flamengo nos vestiários, o Bangu, finalmente, deu sua volta olímpica aos gritos de: “Um, dois, três... se não corre é de seis”.

No bairro, a festa foi regada à chope gratuito, queima de fogos e, quando os heróis chegaram à estação, foram escoltados até a sede social. Paulo Borges, por exemplo, estava em cima de um calhambeque, dirigido pelo futuro presidente Rubem de Freitas.

No ginásio de esportes, a festa foi até as 5 horas da madrugada, com mais de 10 mil banguenses. Os jogadores ganharam “bichos” vindos de Castor de Andrade e também do Dr. Silveirinha. O zagueiro Luís Alberto foi premiado com uma casa, Cabralzinho recebeu uma lancha de presente.

O torcedor-símbolo Juarez de Oliveira queria organizar uma passeada no Centro do Rio, na quinta-feira, com dois elefantes vestidos de tecido vermelho e branco. Acabou se contentando em rezar uma missa pela vitória...

A vitória em 66 repercute até os dias de hoje, boa parte pela briga, mas também por ser o último título de um clube “médio” no Campeonato Carioca. Para os onze jogadores da final, a conquista repercutiu para sempre. Para onde fossem, onde quer que jogassem, eram sempre os eternos “campeões de 66”.

Atuações

Ubirajara – Uma tranquilidade. Jogou certo, defendendo firme e com os nervos em dia. Nota 8.

Fidélis – Um monstro. Defendeu e foi à frente, sendo até pego em impedimento. Nota 8.

Mário Tito – Pegou o melhor atacante da Gávea para marcar, o Almir. Na luta inglória, não levou desvantagem. Nota 8.

Luís Alberto – Perfeito de quarto-zagueiro. Cobriu bem, defendeu melhor. Um craque na posição. Nota 8.

Ari Clemente – Ficou só na cobertura, já que não tinha ninguém para marcar. Quando podia, ia à frente. Nota 8.

Jaime – Um excelente jogador. Distribuiu com facilidade e deu um passe primoroso para o segundo gol do Bangu. É cerebral. Nota 9.

Ocimar – É um negócio. Craque está aí. E só foi descoberto agora. Nota 9.

Paulo Borges – Artilheiro da cidade, velocíssimo, fez um golaço. Nota 9.

Cabralzinho – Espetacular a forma desse menino. Um grande campeão e cérebro da equipe. Nota 9.

Ladeira – Meio escondido, sem o público percebê-lo, mas nas suas deslocações abre caminho para os gols banguenses. Nota 8.

Aladim – A maior figura do time na tarde de ontem. Jogou na defesa e partiu para o ataque com apetite. Fez um gol que dá razão a Gentil Cardoso: quem desloca recebe, quem pede tem preferência. Pediu a bola ao Jaime, recebeu e marcou. Nota 10.

Fonte: Última Hora
A Frase
"Eles se queimaram porque acreditaram na história da camisa. Esse negócio de que o Bangu não tem camisa é lenda. Futebol se ganha jogando e título vem para quem está bem. Eles ficaram tontos. Está aí a história da camisa. E agora? O Bangu tem ou não tem camisa para ser campeão?”
Paulo Borges,
artilheiro do Campeonato de 66
Festa da torcida pelas ruas do Rio, com um caminhão emprestado pela própria Fábrica Bangu.
Festa da torcida pelas ruas do Rio, com um caminhão emprestado pela própria Fábrica Bangu.
Ficha técnica

Campeonato Carioca 1966

Classificação